O espaço para a cadeira.
14 May 2010
O convite endereçado a Miguel Rios para conceber um projecto para o EMPTY CUBE teve como ponto de partida duas premissas: a primeira, foi lançar um desafio à realização de um acontecimento em que a forma cúbica do espaço temporário fosse o objecto de reflexão de um designer.
A segunda, questionar a possibilidade deste acontecimento efémero poder transitar para uma plataforma ficcional a partir de um contexto de trabalho em que a função, aliada ao raciocínio estético como prática de estudo, é o seu modus operandi.
Como refere António Pinto Ribeiro no ensaio Por exemplo a cadeira: “Só o ser humano tem a particularidade de recorrer a este compasso que a cadeira permite, interrompendo, assim, a cadeia de movimentos.”
O que o designer nos propõe, durante o momento em que este projecto pode ser visto, é uma experiência híbrida que nos situa entre a ficção e a realidade, como uma suspensão entre o simulacro e o real. Esta experiência, que se desenvolve na totalidade do espaço expositivo da Galeria Appleton Square, sujeita-nos a um desdobramento da compreensão desse espaço e dos objectos que este contém. Em primeiro lugar, a forma cúbica, que está na origem do objecto criado, e aparece aparentemente replicada pelo desdobramento de uma das faces do espaço arquitectónico em que se realiza o EMPTY CUBE. Em segundo lugar, o objecto criado, uma cadeira pensada e desenhada a partir de um cubo, que é apresentada em dois momentos sucessivos que criam uma oposição. Podemos dizer que esta acção se passa em dois actos.
No primeiro, espreitamos um objecto que associamos a uma cadeira dentro do cubo. Este objecto, a cadeira, é em tudo semelhante às cadeiras que veremos no segundo acto, dispostas numa composição cenográfica. A primeira cadeira que observamos não é representada por um desenho, ou por uma sequência de imagens que recriaria uma impossibilidade de forma realista, reforçando o nosso imaginário impregnado pela fantasia e pelo desejo. Essa cadeira é um objecto dinâmico, condicionado por um dispositivo de observação que convoca os princípios da geometria, e nos coloca no ponto de fuga da perspectiva ao qual corresponde um objecto real. Este projecto é uma evocação do cubo de Louis Albert Necker, no sentido em que nos propõe uma experiência ilusória, mas tridimensional.
A cadeira foi projectada tomando como modelo uma forma geométrica regular, sujeita a uma intervenção que a coloca numa relação ficcional com o observador. O rigor austero do desenho e a escolha de um material único para a sua execução revelam uma afinidade com o pensamento minimalista, e mais concretamente com as reflexões e a produção de Donald Judd.
O projecto Pirson: “Je pourrais aussi regarder la chaise comme un object (parmi d’autres)…” que Miguel Rios e o seu gabinete de design conceberam, reenvia-nos para uma diversidade de referentes que trespassam a arquitectura, o design, a escultura, o desenho ou o cinema, mas simultaneamente ausculta o absurdo ou a transgressão. A cadeira transforma-se numa figura transitória que se encontra entre a impossibilidade e a sua presença como objecto destinado ao consumo. Entre a “câmara escura” como espaço condicionado da observação – e assim da percepção – e a galeria como espaço relacional e mundano.
João Silvério
(SUM)one
05 March 2010
(Originalmente publicada em 10.2009)
O trabalho de um designer consiste em trazer o futuro para o presente.
Joe Colombo
Primeiro como artista e depois como designer, Joe Colombo testemunhou e interpretou através do seu trabalho as profundas mudanças tecnológicas e sociais ocorridas na Europa do pós-guerra. As formas, objectos e espaços criados pelo designer italiano reflectiram a sua crença no progresso da arte, da tecnologia e da humanidade. Foi a partir dessa crença que Colombo desenvolveu o conceito de habitat, um espaço dinâmico que rejeitava as convenções e tipologias estáticas do passado – como casa, divisões ou mobiliário mas também família, trabalho ou lazer – para se adequar às necessidades do homem moderno. As zonas – de dormir, de estar, de comer – deste habitat não corresponderiam mais às divisões de uma casa, nem seriam recheadas com mobiliário. Tal como a vida, cada espaço seria o que um indivíduo fizesse dele, cada zona um invólucro expectante, activado por equipamentos modulares e multifuncionais.
A Minikitchen pretendia ser um desses equipamentos. Projectada para o fabricante de cozinhas italiano Paolo Boffi e lançada na Trienal de Milão em 1963, esta unidade com menos de meio metro cúbico em madeira e metal continha um fogão, um frigorífico, um abre-latas, gavetas para talheres, superfícies de trabalho e até espaço para livros de cozinha – tudo alimentado por uma única ficha eléctrica. Este todo móvel e dinâmico era mais do que uma soma de partes, mecanismos e funções: a Minikitchen não era um móvel de cozinha. Ela era a cozinha.
Foi também a vontade de activar um espaço através de um equipamento que levou o gabinete Miguel Rios Design a criar o objecto (SUM)One. Criado a partir da apropriação formal e conceptual da peça /BNU, /2009 de Ângela Ferreira para uma apresentação conjunta pensada inicialmente para o edifício do MUDE – Museu do Design e da Moda, (SUM)One é, tal como Minikitchen, um esboço de futuro.
A forma de /BNU, /2009, ao invés, tem origem no passado – mais precisamente no próprio edifício do MUDE, outrora a sede do Banco Nacional Ultramarino. Criado em 1864 como banco emissor para as colónias portuguesas, o BNU foi um dos principais braços do poder imperial português – e este edifício o epicentro desse poder. A divisão do museu onde as duas obras estariam expostas, a sala Dom Luís Pereira Coutinho, honra o administrador do banco que ordenou a remodelação do edifício da Rua Augusta. Esta inigualável obra “sem orçamento”, projectada por Cristino da Silva e inaugurada em 1964, data do centenário da instituição; nesse mesmo ano, Pereira Coutinho inaugurou também em Lourenço Marques outra emblemática sede do chamado “banco das colónias”. Projectado por José Gomes Bastos, este notório exemplo da arquitectura moderna portuguesa é hoje o mesmo edifício, mas tudo o resto mudou. A cidade onde se encontra não é mais Lourenço Marques. A colónia portuguesa é hoje uma república africana independente. E este imponente bloco de cimento e vidro não é mais a sede do poder financeiro da metrópole. É o Banco Nacional de Moçambique.
Ângela Ferreira encontrou nas duas sedes de poder financeiro – e na tensão entre o espaço da primeira e a forma da segunda – terreno fértil para uma reflexão sobre o poder e o passado colonial português. Este é um objecto construído através da memória e da vida do seu autor, mas que procura, com a sua presença perante nós, activar a nossa memória colectiva.
Ao apropriar-se de /BNU, /2009 e ao sujeitar este objecto a um raciocínio projectual característico do processo de design, o gabinete Miguel Rios Design constrói a partir da forma da sede do BNU em Lourenço Marques, evocada por Ângela Ferreira, uma nova obra inspirada na MiniKitchen de Colombo. Ao incorporar dispositivos mecânicos (rodas, gavetas, dobradiças) e sugerir novas funções (bancada de trabalho, mesa de refeições), (SUM)One pretende questionar a natureza do objecto artístico, atribuindo-lhe uma funcionalidade que lhe é ausente por natureza.
Como em qualquer objecto, ou equipamento concebido através do processo de design, essa funcionalidade apenas existe quando é estabelecida a possibilidade de uma real interacção entre objecto e sujeito. Ou seja, quando é criada – e encorajada – a utilização de um artefacto por um indivíduo.
É precisamente sobre os limites dessa (im)possibilidade que (SUM)One opera: apesar se encontrar no espaço de uma galeria e se apresentar num contexto artístico, este objecto não se encontra desprovido das funções que lhe dão sentido. Durante o tempo da exposição, é passível de ser aberto, fechado, mexido, tocado, usado. Mas mesmo que não lhe seja negada a possibilidade de ser posto a funcionar, aqui não é mais do que uma soma de partes que funcionam. A sua funcionalidade é aqui exposta como algo em potência, como cenário futuro.
Afinal, esta galeria não é uma casa, nem sequer um habitat: por muito que Joe Colombo tenha desejado alterar a forma como activamos as zonas onde vivemos, há espaços que através da sua função activam eles próprios significados, metáforas, histórias a partir dos equipamentos colocados perante nós – e não o contrário. Aqui e agora, sabemos ser capim o que cresce no canteiro de solo africano. Mas quando a exposição acabar e tudo isto for retirado do espaço da galeria, o capim torna-se em erva, o solo africano torna-se em terra e (SUM)One poderá finalmente tornar-se num móvel de cozinha.
Somente através da sua produção em série, distribuição e comercialização – elementos integrantes do próprio processo de design – (SUM)One poderá realmente ser posto em prática. Só assim o equipamento que se encontra à nossa frente poderá, tal como a Minikitchen de Colombo, encontrar a sua verdadeira função: responder às necessidades do dia-a-dia dos seus utilizadores e activar os espaços para onde for levado. Só então, libertos dos significados, metáforas e histórias do passado, poderemos trazer um novo futuro para o nosso presente.
Frederico Duarte
Tendo estudado design de comunicação em Lisboa, Frederico Duarte (1979) trabalhou como designer em Kuala Lumpur e Treviso. A partir de 2004 deixa de praticar design para se concentrar no que está à volta desta actividade, tendo trabalhado desde em pesquisa, promoção, produção, curadoria e crítica de design. Actualmente vive e estuda em Nova Iorque, onde integra a turma inaugural do mestrado ?em crítica de design? da School of Visual Arts.
GEOMETRIA BRANCA
12 November 2009
(Originalmente publicada em 10.2007)
Foi uma noite em que o design se aliou às artes plásticas e às artes performativas numa Galeria de Arte. Com muita gente, para cima das cinco centenas, e um objecto composto por um sistema modular que é, na realidade, uma multiplicidade de objectos. E o Branco. Uma imensidão de branco. Onde nada está inscrito, mas que tudo pode conter. Um ambiente iluminado, rigoroso, metódico e frio que nos remete de imediato para uma qualquer dimensão futurista, mas que é, afinal, a nossa realidade. Hoje e agora. Foi o branco, simbólico e imenso, que Miguel Rios elegeu para a apresentação da 1ª edição do projecto, desenvolvido pelo Gabinete Miguel Rios Design, que tem como base o sistema de montagem de malas / contentores System 2K07 e o sistema de protecção Drizzle System, ambos partes integrantes da linha System. Objectos com uma geometria pura e rigorosa e um sistema aberto de design, onde apenas o conceito inicial se mantém inalterável, revelados no grafismo de um vídeo de Hélio Oliveira. Sete componentes, conjugáveis entre si através de passadores, fechos e velcros, que permitem a construção de cinco versões de malas / contentores - Box, Mini-Box, Laptop, Pocket e Portfolio– em que o processo de construção pelo próprio utilizador, tendo em conta as suas necessidades e desejos, reflecte o carácter lúdico e o sistema aberto de design da sua essência. Também com o branco tudo está em aberto. Por isso, imperou. No seu lado asséptico, para que nenhum ruído estranho perturbasse a leitura clara do conceito do objecto de design.
No centro de uma das salas da Galeria Vera Appleton, uma instalação de Ricardo Jacinto. Uma estrutura, também ela geométrica, lembrando uma estação espacial ou o ambiente imaculado de um laboratório, concebida para reflectir até ao infinito os corpos, os movimentos e os objectos. Dois corpos, gémeos, também eles pela sua condição a reflectirem-se um no outro. Movimentos mecânicos, repetitivos, ritmados, sincronizados e exactos, sem margem para o erro, coreografados por André Murraças. Uma bebida, também ela branca - Dame Blanche: uma peça criada por Hugo Brito, que idealizou uma combinação de líquidos bebíveis dispostos em quatro bebedouros que habitualmente contêm água. Noutra das salas, o público presente foi convidado a manusear os componentes modulares e a experimentar as combinações possíveis. Miguel Rios dirigiu esta apresentação com a mestria de um chefe de orquestra, demonstrando o seu depurado processo de trabalho. Tudo com o mínimo ruído possível, para que ninguém se distraísse do essencial – o puro objecto de design. Num futuro próximo, o branco deixar-se-á contaminar por outras cores. Nesta noite foi apenas o branco.
Anabela Becho
Anabela Becho começou no jornal Blitz. Escreveu para as revistas ELLE, Número, Obscena, entre outras. Colaborou com a ON, a ÍCON, a revista VOGUE e com a Agenda Cultural. Neste momento é Directora Editorial da revista de cultura urbana RELANCE.
Miguel Rios Design Online
12 November 2009
(Publicada originalmente em 01.2007)
O gabinete Miguel Rios Design surge de um crescente interesse pelas questões da viabilidade prática do design na indústria, da concepção do vestuário como elemento de protecção e de comunicação, do seu carácter utilitário e funcional e das questões ligadas ao inteligent wear. Assim, quando formado, em 2002, este gabinete tinha os antecedentes do designer Miguel Rios, já há muito ligado à pesquisa e observação da dinâmica do vestir e à relação do corpo com o vestuário, enquanto objecto. Um dos objectivos deste site será, deste modo, comunicar estes interesses e referências.
Presentemente, a equipa que forma o atelier MRD trabalha em diferentes projectos, todos eles relacionados com a adaptação das novas tecnologias ao mundo têxtil. O seu core business é o design, pela equipa e pela dinâmica estratégica que o constitui. Pretendem criar e implantar no mercado produtos que de alguma forma estejam fora do âmbito comum das peças de vestuário, dos aspectos efémeros que lhes estão usualmente associados, e incutir nessas peças algo que lhes confira uma certa continuidade no tempo e as possibilite, igualmente, comunicar por elas próprias.
Com toda a subjectividade que essas temáticas possam abarcar, com toda a complexidade de referências, o Homem sempre imaginou o futuro, sempre projectou imagens. Um mundo de alta tecnologia está em desenvolvimento, muito mais rápido do que se possa pensar, e a realidade que o comum cidadão observa, com mais ou menos atenção, é encarada de outra maneira por mentes que equacionam possíveis cenários mais futuristas. A verdade é que há 40 anos não se imaginava um mundo tal como ele se nos apresenta nos dias de hoje. E isso está presente em diversos filmes ou outras formas de arte das diferentes épocas (daí a diferença do imaginário de um 2001 Odisseia no Espaço e de um Blade Runner). Há perigos que vivemos hoje e projectamos para o futuro, e por esse facto nos confrontamos com eles no dia a dia, a ficção vagueia pelos vírus, pelas contaminações e pelo terrorismo. Ao mesmo tempo que encaramos este mundo mais perigoso, o futuro também nos reserva o prazer da utilização de novas tecnologias associadas a um maior conforto e protecção, a aspectos mais emocionais, portanto mais humanos. Este gabinete pensa nestas questões há muito tempo. Interroga-se em como será, na prática, a vida numa urbe complexa e plena de incógnitas. Em como nos poderemos proteger e viver em sociedade. Imaginários futuristas não fazem parte só da BD. Não podem.
Continuamente ligado a cidades, às questões urbanísticas e sociais, à arquitectura e à cultura urbana, os interesses de Miguel Rios sempre estiveram entre a arte e o design, a evolução do corpo e as suas possíveis adaptações ao meio que o rodeia, a alteração que isso implica no comportamento dos indivíduos, o mundo têxtil e as suas constantes mutações. Por isso, não é de estranhar que algumas das suas referências sejam Sterlac e Lucy Orta. E que pense em todas estas questões em função só e unicamente da urbe.
A leitura dos vários pontos deste site servirá para entender os projectos em si, com toda a hermética implícita em questões de inteligent wear, e para conhecer os envolvidos, a equipa em si. Esta plataforma de comunicação servirá também como veículo de expressão para várias questões e eventos ligados à cultura contemporânea, escritos por diferentes autores, consoante os temas. Esta página será, assim, um espaço de opinião.
Isabel Lindim
Actualmente, colabora com as revistas Elle e Le Cool, bem como, elabora os textos para imprensa de diversos eventos, como a ModaLisboa
Entre 1996 e 2005 colaborou com as revistas Grande Reportagem, Visão e DIF, bem como foi redactora da Elle e editora da revista on-line Le Cool. Igualmente, assumiu as funções de jornalista no programa Pop Up, da RTP 2, sobre cultura urbana, no ano de 2005.
Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Autónoma de Lisboa, 1996.